Tempo
Eu amo a frase "o tempo voa", mas Bento se sentia desconfortável com essa expressão desde sempre...
Bento caminhava naquela praia deserta em um dia nublado no meio de maio, observando as ondas quebrando.
Ele andava com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa, descontente, porque achava que não estava aproveitando a vida como deveria, que o tempo passava depressa e ele estava envelhecendo antes de conquistar tudo o que queria, mesmo ainda estando na casa dos 30, ele pensava que essa idade já era "tarde demais" para alcançar todos os seus objetivos.
- Eu queria não me preocupar com o tempo - ele finalmente expressou em voz alta enquanto encarava o horizonte.
Uma figura alta de vestes brancas apareceu para Bento que, chocado, caiu sentado, hipnotizado pelos profundos olhos negros daquela criatura em sua frente. Na cabeça de Bento, a criatura se parecia com uma nuvem, daquelas que olhamos no céu e tentamos adivinhar com o que se parece, mas por fim, são só contornos e imaginação.
- Meu caro - disse a grande figura em uma voz doce -, vejo que ainda se preocupa comigo.
O pobre Bento seguia imóvel e calado, de olhos arregalados, sentado na areia fria.
- De hoje em diante, nunca mais precisará se preocupar com meus efeitos sobre você - ao terminar de falar, a figura dissipou-se no ar, como fumaça de uma fogueira que acabara de se apagar.
Levou anos para que Bento percebesse o que tinha lhe acontecido naquela manhã de maio, mas, eventualmente, ele notou: O tempo deixou de passar para ele. Nunca mais envelheceu sequer um dia, ele tinha todo o tempo do mundo ao seu dispor e poderia fazer o que quisesse com ele.
E ainda sim, oitenta anos depois, Bento voltou na mesma praia, chorando, ajoelhado naquela areia fria, com os braços estendidos para o céu.
- Eu não quero mais sua maldição, tempo! - ele gritava entre soluços.
E então a figura apareceu em sua frente.
- Maldição? - disse com a voz doce, porém afetada.
- Você me tirou tudo! - falava Bento - Eu enterrei minha esposa, meus filhos! Todas as pessoas que eu amava já se foram! De que valeram todos os meus planos se não posso viver com quem amo?
As lágrimas escorriam pelo rosto de Bento, que finalmente encarou a alta figura nos olhos negros e profundos.
- Maldição? Eu sou uma dádiva. Cada momento vivido é especial porque é finito. Você tem uma longa vida de memórias boas e ainda assim está aqui, implorando para que meus efeitos passem por você novamente. Eu não sou algo a ser temido, mas sim apreciado, Bento. Eu sou o que dá sentido à vida.
Bento encarou a figura, que expandiu-se até tocá-lo. Bento sorriu finalmente com a sensação de paz que o atingiu e ambos dissiparam-se no ar, sobrando nada ali além de uma brisa do mar e o som das ondas.
"Sed fugit interea, fugit inreparabile tempus"
("Mas ele foge, irreversivelmente o tempo foge") - Geórgicas, poeta Virgílio.
Geórgicas - disponível em: http://www.thelatinlibrary.com/vergil/geo3.shtml
Bem assim mesmo, às vezes não entendemos o sentido do tempo 👏🏻
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